O Espectador
Uma aventura épica de três heróis, escrita orginalmente em 2023.
TORRE DA ESPADA
Uma cidade fantástica, recebe uma torre gigante, simulacro de uma espada com sua guarda-mão em forma de balança. Essa cidade forma uma espécie de protetorado poderoso e a torre em seu centro, o quartel general onde decisões que envolvem a proteção de todo o continente, e por vezes toda aquela realidade são tomadas. Uma reunião emergencial está prestes a acontecer, pois o sinal fora dado. Aquela sala elegante havia estado vazia a anos, mas por mágica, tudo estava como deveria estar.
Na cabeceira da mesa comunal de mármore estava um homem de semblante temerário, era um rei. Seus cotovelos apoiados seguravam uma cabeça morena de farta cabeleira grisalha e barba espessa, de forte corpo, que por displicência ou esquecimento não envergava sua típica armadura mágica, não que ele precisasse dela, era a vida humana mais forte tocada pelo sol, seu pai. O momento e as circunstâncias o deixou tão pouco protegido quanto pouco amedrontado. Esperava seus iguais quieto como um soldado de tocaia, pois nada precisava ser dito até que fosse necessário.
As batidas gentis e civilizadas na porta do grande salão cortam o silêncio noturno de inverno com o tremor da garganta de um felino de grande porte, atrás da porta.
Ao puxar a porta que protestava, uma linda dama de raça selvagem e indefinida se revelou, que apesar das roupas esvoaçantes e armadura metálica, conservava uma beleza exótica e obviamente mágica. Seus cabelos vermelhos trançados adornavam um olhar brilhante, inquisidor mas amável, como de uma grande e poderosa mãe. E ela era.
Aquela mulher, do lado do homem-rei era minúscula, a não ser pelo seu porte soberano, abraçou o que pode do homem do deserto, num abraço longo, afável e sem respirar, quase. Até a própria pantera, fera descomunal e ameaçadora acariciou com a cabeçorra aquele abraço, como se ignorassem o mundo de tribulações por um legítimo momento fraternal.
-Eu sinto muito por estarmos nos encontrando nessas condições, amiga. Seja bem vinda novamente. Vamos esperar quem mais puder chegar. Disse o homem com voz potente, mas que forçava a mansidão.
-O maior ultraje, Sahdler, é nessa mesa não estar a minha taça de vinho.- Em tom provocativo e amigável, a mulher selvagem disse, sorrindo.
Ambos entraram na sala, Sahdler, retornou a sua cadeira, enquanto a mulher, sentava-se ao lado, ignorando o sem número de cadeiras ali. Não havia nenhuma necessidade de pompa e formalidade entre eles.
-Alguma coisa despertou no abismo e dizimou todo o pelotão de contenção que a muito tempo deixamos lá, poucos sobreviveram e os que sobreviveram tiveram a sua sanidade rasgada para conseguir contar de forma satisfatória. Eram bons homens, Mirrir, eu os vi crescer, eu mesmo os treinei, eles eram do antigo juramento.- Olhava no horizonte através das janelas, já havia muito tempo que ele não tinha que se preocupar com baixas de soldados, então se desacostumou das coisas mais simples.
-O juramento que eles fizeram irá vingar as suas mortes. Nós os vingaremos. Eles conseguiram impedir a captura da jóia? - Ela perguntava, já duvidando da resposta.
-Não.- As palavras, duras como ferro, sem intenção de mansidão, agora.
Uma bola incandescente surge no horizonte e rumava na direção da torre, que, aparentemente, não preocupava seus hóspedes. O cometa cruzava rápido os céus, iluminando a cidade como um pequeno sol, crepitante e certeiro, acertou a parte aberta da torre. O cometa não queimou, não agrediu a rocha fria da espada monumental, nem mesmo tremeu os papéis em cima da mesa comunal, pois aquilo era apenas um transporte e não uma arma de guerra.
O fogaréu irreconhecível se apequenou, diminuiu, minguou até caber na barba longa, longeva e branca de um anão idoso, presa em um cinto, preso em uma armadura cofre tão bonita quanto pesada. O anão bateu as últimas faíscas no corpo, como poeira, alisou a careca e andou se apoiando num machado longo, com sua cabeça feita de gema preciosa, como uma bengala. A bengala de um velho que não precisava de ajuda.
-Pelas raízes da montanha! uma conversa pavorosa sem bebida é como um tapa na cara da nossa mãe- Uma voz rouca e cansada, mas inconfundível.
Mirrir sorri com a mão na boca.
-Se eu soubesse que era necessário, eu teria mandado subir um alambique inteiro, Barba de Fogo. A situação não está para brincadeiras.- Sahdler talvez não tivesse mais tanta paciência mesmo, não costumava falar assim e não esperaria o mago chegar, provavelmente ele estaria realmente morto.
-A jóia foi roubada, não sabemos qual maldição emergiu do abismo, Constantinus provavelmente está morto e não sabemos se os selos temporais estão íntegros. Existe uma crise econômica nas capitais do leste e uma guerra parece ser inevitável. Só existem apenas nós três e não consigo resumir tão bem as coisas como gostaria.- O rei de Empera era bom em dar panoramas simples de cenários complexos, mas ele esperava que perguntas fossem sendo feitas para dar vazão a tantos contextos.
-Existe alguém que possa ficar no seu lugar?- Mais uma vez, Mirrir toca no ponto e deixa Sahdler mais pensativo do que gostaria de admitir.
-Vai existir. Meus filhos formam um conselho na minha ausência. Mas eu não sei se quero rastejar minha barriga em masmorras e pântanos novamente.- Com honestidade.
-Em Morahin já assumimos a autogestão plena, quem manda é o povo e eu atualmente só assumo um papel representativo e uma voz na suprema corte. Já estou pronto para assumir a estrada agora, se tudo estiver certo.- Barba de Fogo, falava mexendo nos papéis e peças na mesa, em pé, tentando entender o panorama marcial que Sahdler fez anteriormente em silêncio.
O anão pensava em algumas coisas, algo no que via não fazia sentido.
-Eu não senti nenhum distúrbio, na natureza, as sequoias não relataram nada, tampouco os vales e montes, a não ser pelos ursos do vale aqui de perto, mas esses são sempre mal humorados mesmo. Não vejo o prenúncio de algo catastroficamente maligno, acho que só algumas coisas precisam ser alinhadas. - Mirrir dizia isso com segurança, de fato não havia uma grande coisa acontecendo nos ermos e florestas, seu domínio.
-O que eu sei, é que algo está acontecendo que não é somente problemas corriqueiros e…- Sahdler foi interrompido pelo anão.
- Quantos foram os sobreviventes do ataque do abismo?- Dizendo, sem olhar para os rostos, apenas para o mundo imaginário representado na mesa de pedra.
- Apenas um. Porque?- Sahdler tinha algumas hipóteses em mente, mas seu camarada de batalhas poderia confirmar as suspeitas, pois ambos eram mestres de guerra.
- “Crises econômicas nas capitais” apenas nas capitais do leste, ao mesmo tempo em que acontece algo no abismo com um sobrevivente ocular. Um sobrevivente ocular é nenhum sobrevivente. Essa guerra é uma distração!- Como se tivesse se tocado agora de algo óbvio, os olhos de Barba de Fogo exclamaram em fogo.
Sahdler se incomoda na cadeira, como se nela tivesse farpas, mas completa a fala do amigo.
-A direção é exatamente oposta, de fato, nas capitais estão as pessoas de mais influência e onde os principais acordos comerciais acontecem, não fronteiras, não nas tribos isoladas. Apenas nas capitais.- Sahdler se levanta, as farpas ganharam pela insistência e o fizeram andar em volta da mesa.
Um breve silêncio é cortado pela senhora das florestas.
-Correlação não é necessariamente causalidade, Oroin. Você está sugerindo que a mesma pessoa causou os dois episódios. - Mirrir pontua.
- Se eu mando a tropa dos Furiosos fazer uma incisão em alguma tribo órquica e todos morrem, é uma vitória. Se somente um sobrevive, como eu vou saber? Isso significa vitória, ou seja, não era pra Empera saber do ataque do abismo. Quem nos conhece de verdade, nossos inimigos, sabem que nós vamos dar atenção para as capitais, é uma distância absurda entre os pontos.- Quanto mais Oroin falava, mais acreditava.
- E quem sai do abismo tem campo aberto para agir. Já se passou uma semana disso, provavelmente já agiu o suficiente.- Sahdler debruçado, com os nós dos dedos ficando brancos, de tanta força que fazia na mesa.
- Eu continuo achando que não seja a mesma pessoa, mas de fato precisamos agir. Eu sugiro dividirmos nossa influência.- Uma mãe, que está acostumada a lidar com várias coisas ao mesmo tempo.
Os homens concordam em silêncio.
-Eu vou conversar com a guilda de guerra, pedirei aos Machados que mandem toneladas de Furiosos e recursos para as capitais, eles receberão ordens de só agir se necessário caso seja visto algum mal externo. Fiala Ulartal é esperta o suficiente. Estamos em uma boa fase e podemos despender desses recursos sem grandes sacrifícios, talvez até conjuradores.- Oroin somente agora levanta cabeça e termina a modificação no mapa de toda Épica e seus continentes. As cidades estavam com peças vermelhas adicionadas.
-Mas não precisamos apenas de punhos, precisamos saber quem arquitetou esses planos, quem é a língua maldita que sussurra caos. Mandarei os Lâminas de Azator investigarem as mentes, mandarei os melhores. Os problemas podem ser freados com seus recursos, mas o mal emerge- O emperiano cofia a barba e ajeita o cinto de armas que segurava o saiote, cacoete de batalha que sempre faz sem perceber.
-Há uma comunidade élfica no leste que são amigos locais, vou pedir a eles que intercedam diplomaticamente enquanto se infiltram e sondem o que mais puderem. E nós desceremos até o abismo, então.- Mirrir levanta.
NA ESTRADA
Os heróis estavam há um dia de viagem da beira do abismo, ao norte, a viagem foi encurtada graças aos poderes de transporte da arquedruida, atravessando os portais secretos entre árvores sagradas, cortando caminho com eficiência, diminuindo 80% do tempo de viagem mas exigindo uma grande carga mágica da mesma. Enquanto os dias de viagem se passavam, os três cogitaram planos de combate, possíveis desfechos, precauções e tiveram um tempo para tentar conversar amenidades, que tantos anos distantes impediam, eles tomaram uma vida de responsabilidades e problemas intransigentes. Já fora época em que se aventuravam e brigavam com monstros errantes e senhores malignos. Ambos eram reis de grandes nações e heróis admirados.
-Zanatrokoglumêsh. Disse Oroin, em sua língua natal, com uma voz metalizada, pois estava com seu elmo, da armadura cofre. Capa de pelo, machado apoiado entre os ombros e braços como uma vara e passos lentos e otimistas.
-O que significa, querido?- Mirrir era fascinada pelo idioma nânico dovegurox, pois performava sons duros e rascantes, como se rochas pudessem falar.
-Ahn...não existe uma tradução literal como “pedra” ou “agora”, é um conceito complexo numa única sentença. A satisfação de se vestir lentamente uma armadura se preparando para uma jornada, ou o calor ao sentir um grande combate vindouro.- Um ditado, superstição popular de seu povo.
-Você realmente gosta de encabeçar batalhas, irmão. Achei que isso ia diminuir com o tempo, mas mesmo sendo um bode velho isso se mantém, haha!- Sahdler falava com queixo em pé, cabelo arrumado em caráter prático, saiote costumeiro, grevas e musculata tão adornadas quanto lustradas e mãos em ambos os cabos das gladios, de forma despojada, confiante. Sahdler era um homem de armas versátil e aeróbico, seus equipamentos -apesar de qualidade indubitável- aparentavam não estar tão prontos assim para uma grande batalha decisiva.
-Ah, é né, afinal sou eu que…- O senso sísmico de Oroin o alertou.
Mas por fim, todos de alguma maneira com suas capacidades sobrenaturais sentiram algo errado, o ar denso, a garganta secar e um frio na espinha tensionando os movimentos. O caminho de tundra revelava uma surpresa.
A pantera que estava até então silenciosa e despercebida como a noite, saltou esturrando alto para um canto do caminho entre as pedras geladas. Ao aterrissar, acertou alguma coisa ou alguém sem forma visível que não sangrou nem emitiu barulho de protesto que fosse audível, mas por sua vez, arremessou com um forte baque a pantera contra as rochas a alguns metros de distância, protestando de dor.
-Hanna!- Mirrir, não corre em direção de sua companheira, mas ergue os braços em pleno ar, rasgando a realidade com verbetes em idioma mágico, pois runas e círculos luminosos esverdeados surgem em volta de suas mãos e do corpo da fera. Mas inútil.
Já sabendo que o inimigo só podia estar invisível, Sahdler evoca as forças do deus da justiça, ao mesmo tempo que sacava suas espadas curtas, acendendo uma corrente dourada etérea unindo ambos pomos e antebraços, pronto para o combate.
-Nenhum mal está oculto aos olhos de Azator! revele-se algoz!- Voz de trovão, potente pela magia divina, que ecoou na tundra, rocha e neve, mas não no inimigo. Inútil.
-Mas que caralhos! Fechem os olhos! - Oroin, contrai o corpo e expande seus músculos em um espasmo ígneo, explodindo tudo em alguns metros ao seu redor como uma bola de fogo humana, mas seu fogo não agredia seus amigos.
O fogo selvagem atinge o alvo de invisibilidade insistente, mesmo sendo ferido não se revelava, mas as chamas grudadas nos materiais orgânicos revelaram momentaneamente e parcialmente uma forma inimiga. Alguma coisa com patas.
O que importa, é que a investida do anão deu tempo e oportunidade para o paladino agir. Arremessou sua espada curta da direção da coisa, enfincando metade da lâmina no corpo indefinido e chicoteou a corrente que ligava seu pulso a espada, de modo que enrolasse em alguma outra parte do inimigo, que foi puxado como se sua força não fosse muita coisa.
Oroin, que estava mais próximo, se concentrou em seus sentidos telúricos para perceber mais alguma presença indesejada, já que o inimigo estava invisível e ao perceber que não havia mais nenhuma presença atípica, terminou sua passada pesada até o adversário que estava sendo puxado, usando seu corpo de pêndulo e segurando na ponta do cabo de sua arma, golpeou a coisa na direção de Sahdler como quem rebate uma bola, em algum esporte militar. O golpe sem sangue surte efeito e deixa o adversário prostestante, mais próximo do companheiro.
Mirrir, como uma maestra arcana, do céu aberto e limpo, faz um raio titânico acertar o alvo acorrentado.
-Que maldição é essa?!-Respiração ofegante.
A criatura invisível tenta acertar um golpe direto no meio do peito do gladiador divino, mas por reflexos treinados mesmo sem ver, esquiva em diagonal para baixo, rolando no chão sem apoio dos braços, ao mesmo tempo que corria a lâmina livre em alguma parte da criatura. A manobra ousada derruba a criatura e a enlaça cada vez mais.
A criatura acuada, ferida e presa, com pouco recurso para resistir, mas não nenhum.
Sahdler sentiu o abraço dourado das correntes ganhar a disputa de força e mais nenhuma consequência veio disso, então se deu como vitorioso e levantou do rolamento, arrastando o embrulho sem forma para uma posição mais vantajosa, pois devia investigar com mais calma o ocorrido. Fincou uma gládio em um ponto e a outra em outro ponto, livrando-se das correntes, mas permitindo que o enredamento tensionado fosse o suficiente.
-O quê é você?- disse mais para si, que para a criatura.
-Seja o que for, se morrer, vai se revelar.- Oroin, impaciente.
-Espere, isso não é apenas uma coisa errante e Gaitus revelará- Mirrir se aproximava, com magia empoderada.
Oroin e Sahdler um do lado do outro, de guarda, afastados de combate corpo a corpo e atentos. Mas não atentos para uma das livres pinças da coisa, que estava apenas aguardando o momento certo para um último truque.
Duas fisgadas, rápidas como um espasmo, acertam os heróis: Sahdler na axila, Oroin na clavícula. Ambas as falhas nas armaduras, irromperam em uma dor quente e invisível que desnorteiam ambos, vacilando em suas bases, esbarrando nas correntes, libertando o mal dissimulado.
Desnorteados, os heróis olham ao redor, com o fogo já minguando e não mais conseguem saber onde a criatura sem nome está, seus recursos aparentemente não foram eficazes, até o momento. Não era um assaltante suicida nas estradas, não era um urso coruja com fome, tampouco um aventureiro desavisado, era um único inimigo sozinho que sabia o que estava fazendo e era poderoso.
Súbito, alguma coisa agarra a pantera desacordada e some, mas não sem antes deixar um rastro evidente.
Sahdler e Oroin sentem uma dor lancinante dos golpes, algo estava errado.
-Tempestades vulcânicas têm menos ira do que eu, agora.- Mirrir com sangue na boca e angústia amarga, sentindo sua companheira de toda uma vida ter sido enxotada e roubada de si, como se fosse uma algibeira com pouco cobre.
-Não foi um ataque para nos ferir, não foi uma manobra de distração. Foi uma desmoralização.- Continuando dizendo, com raciocínio veloz e rancor mais ainda.
-Ou para nos enfraquecer antes.- Sahdler com a mão no ferimento, que queimava como brasa.
-Deixe-me ver isso- Disse Mirrir, controlando sua fúria e enxugando lágrimas.
Perguntas sintomáticas foram feitas, movimentos foram testados, estímulos alquímicos acionados, até curas mágicas foram tentadas.O ferimento era profundo, com chagas negras que pulsavam suavemente de forma autônoma, como um corpo estranho, maligno, certamente. Nada na botânica conhecida tinha o mesmo princípio ativo, logo não havia remédio. Ou aquilo era o veneno mais poderoso que Mirrir já vira, ou algo além.
-O meu palpite, é que isso é de outro plano, não é um monstro daqui e somente aquele infeliz teria respostas para isso, mas no tempo devido, podemos unir um conselho de magos para verificar. Espero que isso não abata tanto vocês. - A arquedruida levanta e ajuda os amigos a se sentarem e de alguma forma, tenta promover conforto momentâneo.
-Uhuprakatur!- Exclamou Oroin.
-Azator está aqui.- Sadler repousa a mão nos ferimentos, e sussurra palavras de autoridade divina e uma luz dourada emana de sua palma, que não cura a ferida, mas aparentemente ajudou na dor.
BEIRA’ABISMO
No norte gelado do mundo, está o abismo, onde a visão do caminho, se do lado de fora são: formações geladas cortantes, picos intransponíveis, brisa arredia e um branco acinzentado que não se distingue céu de terra; do lado de dentro: no subterrâneo é lúgubre, escorregadio, agourento e a escuridão é tão presente, que é quase capaz de apagar uma tocha por si só. No abismo não há vida, não há nada, como se fosse uma parte inacabada ou grave falha da criação do mundo, escondida por seu progenitor entrópico dos olhares alheios de reprovação. No norte do mundo onde todas as esperanças eram perdidas, há quem no sul, glamourize que o clima aconchegante pudesse trazer, mas somente quem ousa morar no norte sabe o quão estafante poderia ser viver ali. No extremo norte, somente bactérias específicas podem sobreviver, dizem os mais sábios.
Nada vai até o abismo, nem nada deveria sair, ao menos. Foram poucas as vezes que o grupo precisou passar por ali, e todas elas trouxeram lembranças amargas e verdadeiramente incômodas, seja um amigo traidor, um pesadelo cativado ou uma promessa de honra não cumprida. Somente pessoas de extrema confiança do grupo suportariam saber dessas coisas e serem responsáveis por zelar pela visão do abismo. E estavam todos mortos.
Um forte alto entre encostas geladas abrigava o ponto de observação, Uma construção complexa e bem feita, aquecida e protegida por mãos reais e magia, a Última Torre. E lá estavam os três à procura de vestígios e vingança.
-As marcas de combate revelam que foi um massacre completo aqui, mas o inimigo não usou nenhuma arma conhecida, ou nem armas usou. É impossível ler qualquer coisa além das vísceras espalhadas por tudo por aqui e tutano pegajoso. Não há ácido, fogo, uma gosma estranha sequer. Não há nenhuma evidência que não seja provocada por quem morreu aqui. Dá pra quase dizer que eles se mataram sozinhos se explodindo espontaneamente. Eu nunca vi nada assim.- Sahdler dizendo entre os dentes, por raiva ou choro, era difícil dizer.
-Nem a rocha, gelo ou vento do lugar conseguem me contar o que houve aqui. Arriscando em ver os espíritos da Última Vigília, foram devorados, nem sequer um ectoplasma restou - Mirrir enojada, fez as verificações fora da torre, poderosa ou não, aquilo lhe embrulhava o estômago.
-Eu nem me arrisco em usar o meu sentido divino para detectar alguma coisa, seria como tentar olhar direto para o sol sem piscar.- Sem ninguém indagar, Sahdler se adiantou.
-Como suspeitamos, a gema não está aqui. Esse local se tornou um ponto turístico da hecatombe do mundo- Oroin volta de um saguão da torre, com uma expressão apática, enquanto fumava um cachimbo de canela longa para se aquecer do frio internamente, enquanto externamente, estava completamente agasalhado, pois o frio era o seu pior inimigo.
-E eu, até chegarmos aqui tentei detectá-la magicamente. É impossível eu não detectar uma gema feita por mim mesma.- Mirrir falava, admirando com incompreensão uma aurora boreal em um céu temerário.
Uma aurora boreal, em um tempo desconhecido, havia se formado do lado de fora da então distante entrada do abismo, mas não multicolorida e sim uma variação tonal de vermelho e roxo, claramente não natural. Apesar disso, era imponente e tomava todo o céu a muitos metros acima da caverna em forma de fenda, uma bela manifestação da iminência de um cataclisma.
Os três sabiam o que isso poderia significar e portanto se apressaram em sair dali e correr para a boca do abismo, através do oceano congelado, aos poucos, a linda aurora boreal ia ganhando em tamanho e ao passo que eles se aproximavam da boca maldita do mundo, aquele fenômeno nos céus se transformava de uma onda sinuosa, em um ângulos retos até se transformar em uma rachadura em pleno ar. Se testemunhas pudessem estar ali depois dos heróis entrarem, poderiam ouvir o som de um órgão agourento tocar do céu.
-AZATOOOR!
O clamor inexorável de um homem, rei, pai, herói e fiel, rompe parte do gelo antes de eles entrarem na garganta do fim, chega ao céus e inunda Sahdler com uma luz dourada estonteante que ao se dissipar, transforma musculata pomposa em armadura completa e capa vermelha; gladios em uma única espada gigantesca e adornada.Como um colosso divino.
TERROR CÓSMICO
Passos apressados em declive rochoso. Oroin, Mirrir e Sahdler agora encaixaram suas mentes e corpos como atletas antes da competição, pois eram veteranos exatamente daquilo que estavam prestes a fazer, por bem ou por mal, eles sabiam correr o risco.
O interior do abismo nos primeiros momentos era algo como uma representação geóide da anatomia de uma garganta colossal, com as formações naturais simulando ondas e aglomeração de tecido esponjoso, o que seria um tendão, era estalagmite ou seu oposto. E eles já sentiam o sangue daquela garganta invadir suas mentes, o abismo inteiro era o verdadeiro inimigo e não quem os aguardava.
Acho que é válido dizer, pois costumávamos ser orientados pelo Constantinus, que alguns cuidados devem ser tomados a partir de agora. Mesmo vocês sabendo onde estão, pois eu andei sondando e estudando e devo levar em consideração a posse da gema. - Mirrir, começava uma orientação técnica e provocação conceitual.
-Prossiga- Oroin e Sahdler. Armas em punho, sem vacilar; passos de ferro, sem vacilar; defesas erguidas, sem vacilar.
-O nosso inimigo deseja sair por completo, mas antes, ele precisa de uma identidade que comporte esse mundo. Nossa batalha também será no campo mental e abstrato e eu devo alertá-los de que há uma grande chance de alguém de nós, ou todos nós morrermos aqui. Ou pior.- Mirrir dizia com uma voz duplicada, como se várias versões dela estivesse como interlocutor, pois ela estava numa manifestação poderosa tanto espiritual quanto física, era como de certa forma, ela também fosse o abismo, tamanho poder.
-...Ou pior?- Oroin, corpo em chamas.
-Mas é claro, seu corpo morre mas sua mente não, seu espírito não, sua potência não.- Mirrir não teria tanto tempo para explicar.
-Para simplificar, pense um uma coisa que defina vocês, qualquer coisa e no momento de necessidade, você deverá ser essa coisa, pois o inimigo testará todos os nossos limites, até os limites que não conhecemos e nós devemos resistir.- Mirrir completa.
-Eu acho que entendi.- Sahdler pontua.
A primeira horda abismal é parida pouco tempo depois do fim da conversa. Aranhas desconhecidas açoitam os três que resistem com táticas ensaiadas como memória muscular, ainda que com dificuldade, pois realmente algo estava diferente.
O fogo de Oroin consumia como um astro rei, raios de fogo eram disparados que até mesmo consumiam parte do abismo, seu machado era uma foice de morte ensandecida, girando e derrubando aquilo que seu corpo e fogo não alcançava. Sahdler atravessava, corria, arremessava e expurgava o mal, um farol divino em pura treva. Mirrir retornava a própria maldição para o amaldiçoado, senhora dos tremores, ácidos e raios negros.
Mas Hordas iam e vinham sem cessar completamente, sem deixar os heróis respirarem, até que eles tivessem perdido a noção do tempo. A noção de espaço. A noção da dor.
Bestas gigantescas engolfavam Sahdler.
Vermes sem fim rasgavam Oroin.
Pulsos telúrgicos tentavam expulsar Mirrir.
Até que mais nada daquilo fazia sentido, eles não sabiam mais se estavam juntos e se seriam capazes de continuar, de realmente continuar. O inimigo surge e dá seu primeiro golpe.
-O que é você?- A voz era clara e amedrontadora, pois cada um ouvia da forma que mais lhe causava aversão genuína. Mas não era uma voz como dita em um idioma, era um paradigma vivo, era um conceito que enfrentava a mente dos heróis.
-Eu sou a Justiça.- Era Sahdler, que golpeava sem entender o que estava golpeando.
-Eu sou a Materialidade.- Oroin, que queimava sem ver.
-Eu sou a Vida.- Mirrir, que se destruía sem dor.
-Isso não é nada frente ao Esquecimento. Seu mundo é uma ilusão que deve ser desvelada. O velho deve morrer para que o novo nasça.- O prenúncio do fim.
-A Justiça compensa a má ação, a Justiça perdoa o Esquecimento pois ela ajuda a manter viva a memória.- Sahdler com parte a armadura destruída, não entendia mais onde era o seu golpe ou o do adversário.
-A Materialidade é construída por aqueles que aqui vivem, é a história do povo que luta e que conquista, é o real que se prova e se faz sentir. O Esquecimento é uma poeira que se bate dos ombros.- Oroin sentia-se como se…estivesse queimando?
-A vida é o impulso primitivo que cria e que mantém a criação. O Esquecimento é apenas uma fase entre a vida, entre as vidas que se renovam.- Mirrir sorria com sangue.
-O Abismo engole tudo, o Esquecimento é a única certeza dos mais velhos. O tempo é a sua pedra angular e para mim, o tempo é irrelevante Eu sou a antítese do que se é.- A gema estava quase se rompendo e abrindo o portal, em algum lugar do abismo.
-O tempo só é tempo, pois a consciência do que se é material se percebe, como as páginas de um livro escrito coletivamente. O tempo é a régua da história. Suma!- Oroin.
-Um contraponto só existe pois um ponto há. Recolha-se ao seu não lugar. Suma!- Mirrir.
-Você não tem nome, forma, memória ou razão. Suma!- Sahdler.
FIM?

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