Sobre a Fé
Uma história de família, escrita originalmente em 2022.
Gostaria de propor um debate e antes, devo contextualizar a história: eu sou marxista-leninista e não-cristão; minha mãe era cristã e até onde parecia, de centro direita, pouco politizada. Ironicamente, ela sabia o hino da Internacional Socialista de cabeça, e cantou timidamente algumas vezes na vida pra mim, tanto que quando jovem e descobri o que era aquilo, achei que era um cântico cristão e fiquei confuso.
Durante toda a sua vida, minha mãe foi evangélica e vivíamos uma realidade muito difícil por sermos pobres, mas com muita garra e amor minha mãe criou a mim e a minha irmã com dificuldade, sendo guiada por algo mais forte que eu poderia medir (ainda hoje) que era sua fé. Até quando mais nova, vivia uma situação difícil com seu pai e infelizmente carregou um legado ruim continuado pelo meu. Entretanto, ela parecia uma rocha inabalável em seu objetivo, que era tentar ter uma família aos olhos de Deus.
Houveram momentos em que minha mãe se negava a deixar pra trás seu matrimônio problemático, mas com muita conversa minha e de minha irmã, ela cedeu e passou a se desligar de seu problema.
Aí veio o câncer.
Sua família (minha irmã e eu, seus irmãos, sobrinhos, cunhados, etc) a ajudou em tudo o que pode, pois definitivamente era amada por eles, mas ainda sua fé estava lá, guiando seus passos e não a deixando cair. Eu perdi a conta de quantas vezes eu a vi chorar.
Eu fiquei mais velho e comecei a trabalhar, passando a inverter o ciclo da vida, onde você passa a cuidar de quem te deu o sopro primordial. E ela pregava de sua religião pra mim, mesmo sabendo que eu não me sentia em sintonia com aquilo, a vida da minha mãe foi sustentada completamente por valores cristões humanos que eram incontestáveis a quem olhasse.
Minha mãe morreu segurando a minha mão num leito de hospital e sua morte trouxe o questionamento de todos aqueles que a fizeram mal. Eles fizeram questão de pedir desculpas mesmo que ela não pudesse responder, em coma.
Porque estou contando isso?
Marx uma vez disse que “A religião é o ópio do povo” (Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. 1843. Página 145, editora Boitempo.) Mas o que o contexto correto diz, é que ela é o afago de um mundo mal, o fôlego de esperança no peito do oprimido, a anestesia de uma grande dor e não uma droga maligna. O mundo em que vivemos que é corroído pelo capital e sua ideologia promove uma desumanização dos trabalhadores incalculável, pois lhes é retirado a perspectiva real de uma saída para seus problemas materiais, lhes é arrancado suas subjetividades e paixões, portanto é natural que a humanidade tenha suas bengalas afetivas, seus porto-seguros da alma. Para mim, é inconcebível e desumano desejar que o trabalhador não precise disso, cabe a nós mudar a realidade e não culpar a religião por frear as consequências dela.
Minha mãe me ensinou muitas coisas, construiu minha autonomia, viveu sua fé como deve-se viver, sem demagogias, mesmo não sendo uma pessoa perfeita. Eu simplesmente não poderia desconsiderar esse fator que até mesmo promoveu um fenômeno na minha cabeça: eu passei a ter a fé cristã, mas não por minha iniciativa, não por uma contemplação individual e sim pelo amor à minha mãe. Eu não tenho dúvidas de que minha mãe foi pro céu, mesmo que eu não acredite nisso completamente. Ironicamente, não seria racional acreditar o contrário.
O trabalhador não é uma figura abstrata, sem face, sem vontades e principalmente, sem religião. Devemos absolutamente nos adequar a tudo que contemplar suas necessidades reais, devemos construir uma religião crítica ou mudar aquela que já existe - sem reservas ou apegos- pois não há luta de classe sem isso, não há luta sem fé na vitória. O combustível do revolucionário é sem sombra de dúvidas, a esperança.
“Vou voar nas asas do vento
Na hora e no tempo em que Deus me chamar
Vou voar, quem dera fosse agora
Subir para a glória, onde meu Deus está
Vou voar quem dera fosse agora
Subir para a glória onde meu Deus está”
Marco Aurélio - Vou voar. 1995.
O Axioma vivo

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