Você Precisa Se Permitir

 Você Precisa Se Permitir 

Um relato pessoal, escrita originalmente em 2023.


Nesses últimos dias, eu me peguei fazendo atividades domésticas em casa e ouvindo uma música relaxante, não tinha ninguém em casa, só eu e o eco de mim. Várias coisas passavam pela minha cabeça, uma vida de problemas e responsabilidades, mas nada estava necessariamente errado, especificamente errado. Eu me deixei levar pelo ritmo da música e pela tarefa motora simples. E eu chorei. Eu chorei copiosamente.


Por que? porque eu estou me permitindo reconhecer os meus problemas (eles não vão deixar de existir fácil); porque eu estou tentando errar diferente (eu estou cansado); porque eu sou uma pessoa falha (todos somos); porque eu me preocupo com as consequências do que faço/digo (eu não sou alguém sozinho), mas sobretudo porque eu sou humano.


Eu não chorei de tristeza, eu não chorei por me sentir incapaz, eu não chorei porque havia algo fora do lugar: eu chorei porque eu estava feliz. Feliz em finalmente entender o tempo das coisas, feliz em perceber que agora eu estava disposto a lidar, doe a quem (principalmente a mim) doer e também em entender que não há nada de errado em ter fragilidade, em deixar tudo isso fluir, junto com aquilo que eu ainda não entendo. Eu acredito na minha mudança real, me enxergo mudando e isso é libertador.


Normalmente, a gente, homem cis está inserido em um papel injusto, e custamos (ou nunca) a admitir que há um problema em nós, porque justificamos esses problemas com falta de tempo, viadagem, e uma grande quantidade de desculpas furadas. A gente costuma apontar o dedo para mulheres que supostamente: só sabem chorar, que falam demais, que são fracas, que um monte de outras coisas, enquanto nós passamos por muita cobrança, humilhação e naturalizamos isso. Assim parece que somos heróis, somos mais fortes. Existe só uma forma de ser forte? Existe só uma forma de ser homem? Balela.


Mulheres fazem isso porque elas assumem suas fragilidades, falam sobre o que sentem e aceitam o risco. Há de se ter uma tremenda coragem em se expôr. Falar sobre o que se sente não precisa ter uma finalidade, não precisa chegar em algum lugar, melhorar ou piorar uma situação. Muita coisa importante na nossa vida não tem nenhuma finalidade, existe por existir. Existe razão em estar feliz? nenhuma. Falar sobre o que se sente te valida, te situa no mundo. E quem não entende isso, quem não quer isso não deve fazer parte da sua convivência. E tá tudo certo, ninguém é obrigado a nada.


Isso tudo gera um cara frustrado, com dificuldade de se comunicar que nunca fala o que sente, maltrata os amigos e se isola do mundo, se isolando de si. Alguns desses não suportam a barra e abreviam a vida, ou batem na esposa, ou não assumem sua sexualidade ou tomam sempre as piores escolhas.


ISSO TÁ MUITO ERRADO.


Se isso não te ajudar a entender, reflita sobre isso: 


Você tem uma filha, você deseja o melhor pra ela, deseja um cara respeitoso para estar com ela, uma pessoa que é sincera e pode estar lá para ela quando você não estiver. Um bom homem, honesto, amável, que a faça realmente bem e que também trate bem a sua família. Independente de bens ou nome. Um homem de verdade é maduro e responsável, não é?



Você é esse homem?



Por fim, camarada, eu entendo o quão difícil isso possa ser, mas é necessário. Comece sozinho, no seu quarto, numa rua longe de casa que seja, e com o tempo se abra pra alguém que de verdade te respeite e por fim procure terapia, pois o profissional não irá te julgar, ele está ali para sanar as feridas e te ajudar a achar por você mesmo suas próprias respostas.


Receba um abraço, cara. Se ninguém quiser te ouvir, eu vou.



Obrigado, mestre.

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