1991


Sou de uma geração para a qual prometeram um pedaço de mundo, um punhado de oportunidades e outro tanto de futuro.


Os anos 2000 chegaram como a virada do milênio e, com ela, a promessa de que eu e meus contemporâneos teríamos uma vida mais interessante e menos sofrida que a de nossos pais e avós. O progresso parecia estar logo ali, na próxima esquina.


O que eu tenho hoje?


Talvez este texto encontre eco na realidade de alguém. Talvez não. Ainda assim, segue sendo um desabafo e uma forma de lidar com minhas próprias fragilidades. Afinal, é melhor escrever do que nunca dizer.


Sinto que, para além da responsabilidade pessoal sobre meu próprio destino, não conquistei nem metade daquilo que supostamente deveria ter conquistado. Tenho mais problemas para administrar do que quadros na parede ou vitórias para apontar.


Eu não teria dificuldade em admitir que falhei. Mas isso não explica tudo. Não é possível que eu seja tão competente em fracassar. Ou talvez seja. Não sei. 


Às vezes rio disso.


O capitalismo tardio sul-americano parece ter dito um grande "na volta a gente compra" para aquele futuro hipotético, para a carreira profissional e para a estabilidade emocional que nos foram prometidos.


Meus pais e meus avós tiveram oportunidades próprias do tempo deles, oportunidades que não voltarão mais. Da mesma forma, tenho oportunidades que eles jamais tiveram.


Eles tiveram imóveis baratos, um Brasil em industrialização, empregos mais estáveis e cidades menos perigosas. Eu tenho GPS, Google, comunicação em tempo real e Excel.


Não me parece uma troca exatamente justa.

Eu arrisco dizer, que poucas pessoas da minha idade tem uma perspectiva real de futuro, que não seja somente enfrentar o leão do dia e tomar uma cerveja no final de semana.


Consigo reconhecer que não existe um passado idealizado e que tampouco há um futuro necessariamente otimista. As coisas são o que são. Cabe a nós compreender o paradigma, o espírito do tempo, e agir da forma mais inteligente possível dentro dele.


Ainda assim, entristece-me profundamente pensar naquilo que eu poderia ter sido caso tivesse acertado o tempo de algumas escolhas — ou a maneira de executá-las.


Olho para trás e finjo indiferença.


Também não consigo me enxergar com a idade que tenho. Frequentemente me pego comparando minha trajetória à de outras pessoas da minha geração, avaliando escolhas e caminhos. Resta em mim autoestima suficiente para perceber os erros delas, caminhos que considero claramente equivocados, mas que não são os meus.


Cada um carrega suas próprias ruínas.

Só pude aprender o que aprendi porque houve esforço, desgaste e transpiração. Mas, sinceramente, eu não queria ter precisado transpirar tanto.


Ouvi certa vez um homem sábio dizer que "o pobre tem menos chances de errar". Faz sentido. Quando os recursos são escassos, cada decisão pesa mais e cada tropeço custa caro demais.


Apesar de tudo, ainda consigo enxergar algumas possibilidades de futuro.


Compreendo que, daqui para frente, preciso pensar de forma absolutamente estratégica. Preciso equilibrar a satisfação de ter vivido uma vida que valha a pena com o orgulho de ter sido coerente com meu caráter. Preciso honrar aquilo que minha mãe esperava de mim, sem me perder em abstrações, fantasias ou ilusões confortáveis.


Ainda quero ser quem sou.

E ainda desejo o mesmo para nós.


Porque, apesar de tudo, ainda existe um tanto de mundo possível.



A banda Metallica faz um show em Moscou, na Rússia, marcando a catastrófica dissolução da URSS, em 1991. Mesmo ano de meu nascimento. Esta foto tem mais interpretações que ouso eu, abordar.

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