Um conto de frustração e sobrevivência.
ENTRE FOGUEIRAS
Asylum, o mundo.
Pais Novo Reino, cidade de Vatigentia, capital do império..
Dia 10, do mês de Comada, do ano de 297.
(Mapa no final do texto)
Era fim de uma tarde quente, quase noite, quando a taverna marginal de Vatigentia, recebia um movimento atipicamente grande. Entre Fogueiras era uma das poucas tavernas daquela cidade, pois o Império considerava bares e praças públicas como antros de vadiagem, então alguns poucos lugares como aquele existiam, evidentemente não sem vultuosos subornos e facilitações. Afinal ainda era necessário o comércio real e popular acontecer.
Era um entreposto também, não só um bar, com muretas abertas e cochos para cavalos, aquele espaço estava recebendo uma caravana e muitas pessoas estavam ali para fins diferentes. Lá dentro, havia um grupo específico de contemporâneos encarando um papel específico no muro de avisos. E nesse papel, dizia:
“Resgate um Aristocrata em cárcere dentro da Mata da Noite Eterna e receba 10 pratas. Confirme comigo seu interesse nessa arriscada missão e receba metade do valor. Risco máximo acompanha esta demanda. Distrito Alabastro 1, Rua das Contendas, última casa no topo do morro.”
Lendo em voz alta com seu sotaque típico dos selvagens nortistas , quem retira o papel, é um jovem adulto alto de compleição física de quem trabalha exaustivamente, típica do ferreiro que era. Algumas bolsas utilitárias estavam espalhadas por cima de uma camisa pesada com suspensórios, protegida de couro e peles, um par de martelos curtos presos na cinta e uma longa cabeleira negra, presa em um rabo de cavalo grosso que despencava da nuca. Este era Érico, filho de Torvaldo.
“Com a mão forte e paciente de um ferreiro, eu forjo meu caminho”
-Então é esse aqui o recado, ao que parece.
Érico repassa o papel para uma mulher de postura séria, roupas coloridas de tecidos sobrando pelas bordas e couro sobreposto. Cabelos soltos, cacheados e rebeldes escondiam um olhar esverdeado atento ao papel. A mulher se apoiava em um arco recurvo, curto, feito de madeira e osso, enquanto lia. Esta era Helena Ialón.
“Serei como a flecha silente que voa e acerta, não como a presa que morre guinchando”
-Eu acho que sei onde fica essa casa, fica depois do monte de pedras, não fica, Damião?.
Disse Helena, com sua melodiosa voz cigana.
-Sim, logo depois daquela praça onde a Legião Solaris deu um baculejo no Caniço, haha!
Damião de Fim de Riacho, era para qualquer olhar desatento, apenas um camponês. Suas roupas modestas, grande chapéu molenga de couro, uma enxada de combate, pele castigada pelo sol, pouco vocabulário e forte sotaque mármore caipira. Apesar de em parte ser verdade, Damião se tornou um estradeiro por sobrevivência emergencial sendo um dos mais destemidos e espertos do grupo, seus reflexos e malícia estavam escondidas atrás de um jeitão despojado e generoso.
“Façamos nós por nossas mãos, tudo o que a nós, nos diz respeito”
A última pessoa do grupo a falar, Tibério “Caniço” estava debruçado na mesa tentando disfarçar sono e fome, com sua boina de couro laminado à cobrir a cabeça, mas levantou rápido assim que percebeu a troça do amigo.
-Em minha defesa, a Erva da Rainha estava boa demais pra não resistir ao enquadro daquele valentão imperial, que fingia que não queria roubar a minha parada pra consumo dele. A casa é deles, mas a rua é nossa. Deixa ele comigo.
“Sou um sujeito que sabe dar seus pulos e não vacila pra otário”
Tibério ajeita seu blazer surrado, em seguida, o porrete de ferro na cinta, confia o cavanhaque longo e se levanta, por fim.
Aquele grupo improvável se conheceu sob as mais diversas contendas que Asylum pode oferecer, um mundo ainda novo, mas já com muitos temores e horrores, onde é mais fácil de sobreviver, estando entre pessoas que possam compartilhar um pouco de história e esperança. Vez ou outra um amigo se despede, outro chega; vez ou outra eles ficam um tempo em paz parado em uma cidade; vez ou outra alguém cai em enfermidade ou problemas locais, mas todos naquele grupo improvável confiava com sua vida na mais arriscada das decisões sem vacilar.
Então os improváveis seguiram até o endereço citado, em busca de ouro e talvez algo além.
CHÁ COM CILADAS
O caminho até o endereço foi como se esperava: caos metropolitano, sujeira e olhares, que ao subir os montes, iam se amenizando. Havia uma casa grande, como sabido, inclusive era estranho ter descoberto que ali mora alguém. Sua fama precedia mal agouros.
-Aqui é mais alto do que eu lembrava. Continuem subindo, eu vou checar se tem algum insumo pra retirar por aqui, precisamos de mais Remela e Chá da Noite. Consigo alcançar vocês a tempo.- A girassol disse, entre respirações.
Por fora, a casa era de fato grande, da madeira, de chão nivelado e erguido por colunas, dois andares de janelas e portas vedadas por ripas e escoras, como se estivesse abandonada ou quisesse conter uma revoada de pássaros fujões. No geral, era a casa de uma nobreza desleixada, sem fazer jus a tal fama de casa mal assombrada.
Subiram as escadas da porta de entrada, bateram e depois tocaram a sinaleira interna, mas nenhum sinal de recepção, além da sinaleira ecoante. Esperaram por um tempo, até sentir uma sensação de espionagem, mas nenhum sinal de que a casa os deixaria entrar. Por fim, repensaram inseguros se era o local certo, debateram brevemente e decidiram ir embora.
-Entrem, queridos! - uma voz feminina e jovem os recebeu quando já estavam a quase dez passos da entrada da casa.
O grupo girou em seus calcanhares e retornou para a porta, com uma sensação de vergonha juvenil, como se tivessem feito algo errado.
-Mil perdões, meninos! Eu estava atarefada e não consegui responder a tempo.- uma menina delicada, quase adulta em trajes modestos, ainda que de qualidade, com jóias esparramadas pelo pescoço, com cabelo preso de forma comportada e com sorriso doce recebe os amigos que se pegaram surpresos, esperando alguém hipoteticamente diferente.
-Ahn… não tem o que se desculpar menina, tudo certo.- Érico toma a frente do diálogo enquanto se abaixa para apertar a mão da menina nobre.
-Sejam bem vindos aos aposentos da família Alvacasa, eu me chamo Griselda Alvacasa. Vocês provavelmente são os generosos tipos que leram o recado no Entre Fogueiras. Acertei?- Griselda ajeita os trajes a se apresentar, como um ato de etiqueta.
-Então você é a contratante?- Érico completa.
-Sim, papai faleceu à tempos e mamãe viajou até Vatigentia, talvez seu regresso seja hoje a noite, pelo planejamento. Eu estou tocando os negócios da família, até o momento. E quem são vocês? Por favor, entrem.- Perguntava, já abrindo um gesto abrangente e receptivo para dentro da casa.
-Me chamo Érico, filho de Torvaldo. Esses são Caniço, Damião e Helena.- Apontando respectivamente e se encaminhando para entrar na casa, ao passo que amenidades são trocadas entre todos antes de entrar.
O cômodo seguinte, uma sala de estar, com sofás espalhados em volta de uma mesa baixa, paredes sem adornos, a não ser por uma parede ilustrada e apenas uma porta no lado oposto da entrada.
A parede referenciada estava tomada por máscaras das mais diferentes formas, cores, texturas e semblantes. Máscaras refinadas e feitas por mãos habilidosas, preenchendo toda a extensão da parede, que capturava por óbvio a percepção dos recém chegados, num cômodo cinzento, minimalista contrastando com a apoteótica ornamentação.
-Vocês aceitam chá? Acabei de esquentar hibisco.- Griselda se aproxima da única cadeira de espaldar alto e se senta, ansiosa pelo chá e pela conversa de negócios.
Todos se sentam, se acomodando da melhor forma possível, o único que vai um pouco além é Damião que tira as botas e chapéu, elevando o aroma pouco esperado.
-É um mordomo que vai trazer o chá?- Damião perguntou, quase como se espreguiçasse, levando os braços de forma abrangente, olhando diretamente para a anfitriã.
-Claro. Temos o apoio de serviçais muito leais à família, estão aqui desde antes da minha fala juvenil.- Griselda completa e sem mais nenhuma pausa ou rodeio.
-Se não se importam, eu gostaria de ir direto ao assunto. Dom Altã é um amigo da família, que foi sequestrado por pessoas interessadas em dinheiro e sua influência, mas eu e meus contatos tivemos notícias de seu paradeiro e seus algozes já estão a um tempo sem voltar lá. Infelizmente esse mesmo informante não é dotado de habilidades como vocês parecem ser, então preciso da ajuda de pessoas capazes para se infiltrar e resgatá-lo.-
Olhos compenetrados e atenção silenciosa.
-Nossas informações nos levam a um monte dentro da Mata da Noite Eterna, lugar perigoso e traiçoeiro, sabendo que nosso confrade está em uma torre, no alto dum monte. É importante avisar que este local é quintal de Urravento, mas que essa missão ao ser completada confere a vocês 20 moedas de prata, diferente do que está no anúncio, caso aceitem, eu lhes pago dez moedas agora.- Griselda segue.
Antes que qualquer um pudesse falar algo, aquela conversa é perfumada com hibisco, pois um serviçal de roupas formais e expressão apática adentra ao cômodo e oferece uma xícara com o chá de flor, servido de uma mesma jarra, até para Griselda, que bebe primeiro.
-Desculpa a intromissão, dona, mas a senhorita saberia dizer porquê Dom Alta já não teria fugido e nós talvez fôssemos lá atoa?- Damião se adianta.
-Então seria válido dizer que Dom Altã não é alguém com habilidades de escapismo e músculos talhado pelo trabalho no campo, querido. Infelizmente esse será o risco de sua demanda, mas garanto o pagamento de retorno, mesmo sem a companhia de Dom Altã, se pelo menos vocês conseguirem provar de alguma forma que foram lá.- Griselda acalma Damião.
-A gente tem quanto tempo?- Caniço pergunta, somente interessado no ouro.
-Eu diria que menos tempo do que gostariam ter, não sabemos por quanto tempo mais os sequestradores vão ficar longe. Então, inclusive eu aconselharia vocês a irem hoje, com um dia de viagem até o destino- Griselda responde, terminando seu chá.
-Esse Urravento, você sabe o que poderia ser?- Érico pergunta retoricamente, pois em segredo, ele sabia exatamente qual mal os aguardava. Um dos motivos de ter sugerido essa missão ao seu grupo, era lutar contra Urravento, que sabia estar na Mata da Noite Eterna. Havia um misto de interesse comercial e rusga familiar a resolver.
-Alguns dizem ser um homem grande, forte e bêbado; outros, que é uma praga florestal que voa. Tudo o que eu sei são apenas rumores de desafortunados que nunca saem da mata, com missões interrompidas e amores não correspondidos. Sinto muito, eu pouco sei.- Griselda, honestamente.
A conversa termina com os amigos aceitando a missão, recolhendo o pagamento antecipado, debatendo detalhes menores e saindo da casa supostamente mal assombrada com mais perguntas do que quando entraram.
ESTRADEIROS
O grupo se preparava na casa de Helena, uma tenda grande na parte externa de Vatigentia, onde vivia uma comunidade girassol. Os ciganos sempre recebiam bem estradeiros em suas tendas, era um costume daquele povo, ainda mais se fossem amigos de um deles, os tratando como se fosse da família.
-Então vocês já vão? Nem vão ficar para um café?- dizia a matriarca Ialón.
-Mais um?! Já bebemos alguns, abuelita, mas devemos partir já. Há um velho babão que não consegue se virar sozinho precisando de nós.- Helena responde, com todos os seus amigos se perguntando se realmente tomar mais um café com bolo não seria má ideia.
Se por um lado estavam todos os amigos receosos pra entrar na Mata da Noite Eterna, por outro lado, estavam preparados o suficiente pra isso, com a ajuda do pagamento investiram em equipamentos e recursos para lidar com a viagem e contornar a letalidade da missão. Poções, armas, armaduras e uma ou outra bugiganga costumeira de quem se esquiva de problemas na estrada. E ao contrário de outros estradeiros que conheceram, eles não tinham nenhuma pretensão de continuar nessa vida caótica, Asylum não era razoável com erros e riscos, aquilo precisava ser provisório.
-Eu morro e não vejo tudo, galera. Uma criança contratante. Que menina esquisita- Tibério dizia, enquanto cospe fumaça de um cachimbo de canela longa, se ajeitando dentro de uma mochila temperamental e volumosa.
-Esquisita, mas tinha um komunal mais eloquente que o seu, Caniço, haha!- Damião, igualmente super preparado, mas apenas com um chapéu novo.
-Alguma coisa me incomodou naquela conversa, gente. Principalmente as máscaras.- Érico dizia, com algum peso adicionado para si, mas que aparentemente não lhe fazia doer. Um martelo de batalha e um escudo de empunhadura central.
-Aquilo também me pareceu bizarro, mas deve ser apenas a excentricidade da arte, raro de ver entre os reinenses.- Helena dizia, quase não olhando para seus amigos, já com arco armado e flecha descansando, mas de prontidão. Ela assumiu sua postura costumeira de “sentinela das penas”, nome que deu a si mesma devido ao uso do arco, caça de animais e postura altiva. O grupo aceitou bem.
Os amigos já saindo dos limites de Alta Guarda, confabularam por qual caminho poderiam ir até a mata, haviam dois: pelas planícies ou por uma afluente do rio Castanheiro. As planícies eram um descampado rochoso, abrigando muitos saqueadores escondidos entre as rochas, entretanto, era o caminho mais rápido; seguindo o Castanheiro , era o caminho mais longo, todavia mais seguro, com chances de pausas e comércio seguro.
Decidiram por fim, ir pela afluente, porque caso o nobre não estivesse mais lá - ou tenha morrido-, ao menos não se arriscaram à toa, tendo o dinheiro do regresso da missão garantido.
Asylum abraçava a estação de O Despertar, onde tudo era efervescente, calor, ventos calmos e fauna e flora estavam se espreguiçar, produzindo com otimismo, então aquela afluente do rio Castanheiro conhecida como Fim de Riacho estava saudando o grupo por onde passasse, pelas planícies e musgos beira rio.
Mas a terra iluminada pelo mar de estrelas era sempre desafiadora, mesmo quando havia paz e canto dos pássaros.
-Eu vejo algo lá na frente, parece imóvel e grande, como uma rocha.- Helena, sempre atenta, conseguia discernir borrões à distância.
-Espaçamento de dois braços entre nós, façam uma fila atrás de mim e fiquem tranquilos.- O nortista selvagem orienta com fluidez, já acostumado com panoramas marciais para aquele grupo e mantém seu escudo de soco nas costas, com martelo despojado sobre o ombro.
Os amigos se aproximavam na verdade de um templo abandonado da Foice, constelação e divindade das colheitas e da morte, assim como todas as outras divindades de Asylum, eram despersonificadas e poderiam ser observadas e cultuadas com comunhão noturna.
Ao entardecer, chegaram no templo, que era nivelado ao chão, com várias rochas diferentes amontoadas formando um círculo grande cabendo tranquilamente vinte pessoas e tinha em seu chão arabescos ornamentados com ossos quebrados e prensados, formando desenhos brancos muito bem feitos. No centro de tudo aquilo, estava um púlpito de rocha com uma simples foice de mão despojada. Não havia nada além disso dentro do templo.
-Se ‘cês me derem licença, vou bem ali agradecer e me sintonizar.- Damião era devoto da Foice, simplesmente não iria deixar passar uma oportunidade como essa de fazer votos e se reconciliar mais uma vez com a terra.
O camponês que ele era, decide por bem capinar com sua ferramenta o mato que teimava crescer, limpando o templo solitário - mas de forma alguma abandonado - como eram os templos da Foice, nos ermos, descampados, fazendas e todo o lugar não tocado pelas cidades de Novo Reino.
A Foice, como as demais divindades Asylenses tem paradigmas diferentes e duas formas de se concentrar, analisando sua superfície ou sua sombra, a superfície é o que se espera a primeira vista e a sombra a consequência ou uma camada profunda. As divindades representam muitos aspectos diferentes da humanidade e entropia, a constelação da Foice é a responsável pelo símbolo da colheita, prosperidade e fertilidade feita pela ferramenta. Entretanto também é possível de se enxergar a Foice como a ceifadora da vida;a missionária da demanda mais indesejada e impopular; a ferramenta assassina e soturna. Mas Damião era apenas um camponês.
Era praticamente noite, quando Damião com fôlego jovial conseguiu dar conta sozinho de um bom pedaço de terra, e ele mesmo espalhado o mato para um possível gado ou cavalo comer, deixando o templo limpo, acendendo uma vela tímida e que de forma sobrenatural, não apagava ou sequer vacilava.
A essa altura, todos os companheiros estavam dentro do templo, permitindo seu amigo fazer seu ato devocional enquanto conversavam amenidades e dividiam uma broa de milho de grãos exóticos e café da matriarca Ialón, enquanto Damião recitava silenciosamente sua prece.
Ó Foice curvada do céu antigo,
eco do galho que se dobra sem quebrar,
canta em mim o saber das raízes
e o silêncio da terra que tudo recebe.
Tu que maduras o grão,
e o deitas com a mesma mão,
ensina-me a tocar a vida
sem possuir seu fôlego.
Que eu caminhe entre os campos
sem negar o peso das estações,
e que minhas mãos não tremam
quando for tempo de colher.
Dá-me olhos para ver o ponto exato
em que a seiva pede corte,
e coragem para não confundir misericórdia
com apego.
Que eu seja ferrugem e filo,
chuva mansa e lâmina justa,
raiz que sustenta
e terra que fecha.
Não me poupes da passagem —
faz de mim ponte,
faz de mim vento,
faz de mim rito.
E quando a última espiga tombar,
que eu não amaldiçoe a ferramenta,
mas agradeça o campo.
Assim sob o céu que vigia,
assim sob a terra que espera,
rogai por nós, ó santíssima lâmina
Que eu corte sem ódio,
Que colha sem culpa.
Por fim, o grupo decidiu terminar a noite no acampamento improvisado no templo da Foice, eles se sentiram à vontade o suficiente ali. O alinhamento e sinergia sobrenatural de um fiel devoto da ceifeira garantiu paz noturna aquele grupo e a vela acendida, só sucumbiu com o primeiro raio de sol.
SEMPRE ALERTA
Já era quase meio dia, quando o grupo já tinha atinado a direção que deveriam seguir, passando por um descampado rochoso com galhos e plantas que arranhavam, enquanto Caniço sofejava uma música de bar animada, mas um pequeno grupo de três lobos famintos acima das rochas não gostavam de alegria matutina e se apressaram em atacar os amigos.
Infelizmente, o grupo não conseguiu perceber a presença inimiga o suficiente pra evitar que Caniço tivesse seu braço e ombro abocanhados do quase letal ataque do alfa.
-Mas que diabos! Expandir!- Érico comandava atrapalhado enquanto sacava rápido seus pequenos martelos de combate, enquanto tentava entender o panorama geral.
Helena já havia visto o suficiente e correu para cima de uma pedra alta, conseguindo esquivar quase que completamente de um lobo, mas sua coxa foi atingida.
Damião que somente com os protestos de dor de seus amigos conseguiu se orientar e entender que um combate havia começado sem um convite formal, girou alto a enxada e quase acerta o lobo que acertou Caniço.
Caniço assutado e com braço ardendo de dor pouco pode fazer além de derrubar o lobo no chão tentando enforca-lo.
-Assim não, Caniço! - Helena, temendo pelo pior.
Um lobo consegue morder a barriga de Damião, outro, erra um pulo em Érico, já o alfa, continua seu abraço cheio de dentes em Caniço, rosnando e se balançando ao que percebe um pescoço vulnerável.
Érico golpeia seu lobo em sequência fatal, dorso e cabeça, o derrubando com um par de baques ósseos, rachando crânio e coluna. Ele sabia que era quase impossível acertar uma matilha em movimento, lobos eram um inimigo mortal em grupo, mas ele era um homem do norte, um esven, da cidade de Spjot, portanto, lobos eram adversários comuns.
Damião levou a mordida e em sequência, de forma treinada, encaixa a enxada no maxilar aberto do lobo mais novo, um golpe certeiro e na hora certa, pois seu sangramento, poderia ser fatal.
Helena dispara duas flechas rápidas nas costas do lobo alfa, mas não antes dele conseguir fechar o maxilar inteiro no pescoço de Caniço, que naquela altura do combate, já estava praticamente inerte e sem protesto. Caniço estava nos últimos suspiros, preço alto demais por uma falta de atenção como aquela. Lugar errado, hora errada, mundo errado.
-Sejam rápidos! Há mais deles vindo, mas eu vou conte-los!- A cigana dispara mais algumas flechas, criando uma contensão, para o grupo desesperado.
-Damião, haja rápido! Eu seguro aqui, use minha poção!- Érico, que largou rapidamente os martelos no chão, empunha o martelo longo com apenas uma mão e o escudo de soco com a outra, se preparando para conter os lobos que fugiriam das flechas.
Damião se dá conta por um instante, que todos estavam feridos, mas Caniço estava a beira da morte, e até ele mesmo já via o mundo vermelho e sentia que logo mais seria a sua hora, mas o grupo havia feito um trato de que cuidariam primeiro daqueles que estivessem com mais sangue fora do corpo ou desorientados.
Rapidamente, Damião recebe o conteúdo do arremesso de Érico, era um emplastro mal cheiroso, uma variação da receita Revita, um restaurador de ferimentos e órgão danificados, que ao passo que era passado lentamente em Caniço, simultaneamente ia recuperando tecidos e sangue como se fosse mágico. E era.
A sensação de Revita era como uma intensa e duradoura cãibra, seguida de uma dormência e alívio imediato, então Caniço exclamou quando seu amigo ia o tornando vivo de novo, sabendo o indesejado problema que seguiria após isso.
-Eu consegui, vamos!- apressa Damião de Fim de Riacho.
Os amigos conseguem correr fora daquele encontro inesperado a tempo de evitar uma quantidade de lobos fatal, correndo com todo o fôlego que tinham, deixando cair coisas importantes para trás, que mesmo machucados, conseguiram despistar os lobos.
MELANCOLIA
Em segurança, escondidos em uma gruta próxima, o grupo cuida de suas feridas da forma que pode, deixando plenamente estabelecido apenas Érico e Caniço, com seus recursos mágicos ou tamponagem e bandagens de guerra, todos ali sabiam - mesmo que de forma atrapalhada - lidar com ferimentos advindos do combate, mas existia um ferimento específico que eles não sabiam lidar. A experiência de quase morte de Caniço.
Todos ali eram filhos de um legado triste, um passado difícil é uma história não orgulhosa; todos ali já passaram alguma vez por momentos como esse, um tipo de vulnerabilidade que só se cura na verdadeira aliança. Damião não pode ver uma injustiça acontecendo com um trabalhador ou escravizado que entra em um frenesi irreconhecível; Helena não consegue lidar com figuras de poder; Érico tem o passado de sua família que tenta esconder. E Tibério teve toda sua família assassinada na sua frente por inimigo incomum com os demais do grupo e toda vez que é restabelecido de uma quase morte, essa maldição o assola, o derrubando numa apatia profunda.
Todos ali se permitiram mostrar fragilidade mútua, conversando sobre suas demandas pessoas e tentaram animar Caniço.
-Imagina só, se sua irmã estivesse te vendo desse jeito.- Disse Helena, abraçada com Caniço em seu colo, uma cena tão íntima quanto improvável de ver Helena fazendo isso, sempre altiva.
-Ainda existem desgraçados pra você se vingar, Tibério. Não serão alguns lobos que irão te derrubar, meu amigo.- Érico tentou.
-Se você não levantar já, eu vou comer o último pedaço de bolo da dona Helenka.- Damião disse, conhecia muito bem seus amigos e sua cartada foi lançada, dando um soquinho fraternal no ombro do amigo.
Tibério Caniço olhou de soslaio para Damião e esboçou um sorriso tímido, se revirou no colo de Helena, levantando e piscando várias vezes. Foi até o lado de fora da gruta lentamente, respirou fundo e disse enquanto seus amigos o olhavam com expectativa.
-Vamos, temos um velho babão pra cuidar.
A VIÚVA
Ao entardecer, já se aproximavam da borda da Mata da Noite Eterna, seguindo beirando uma estrada estreita e ao passo que tudo ia voltando a ser a monótono novamente, barulhos de passos agredindo o solo, flora e fauna emitindo sons e o cheiro inescapável do fumo de Caniço, algo tomou a atenção dos amigos, algo que fazia questão de ser visto na beira da estrada.
Uma figura aparentemente feminina estava ajoelhada a muitos passos à frente, mas era possível de discernir um choro nítido. Essa figura estava com cabelos longos caídos sobre o rosto e conforme iam chegando mais perto, era possível de ver que ela estava abraçada a um homem inerte no chão e no lado oposto dos dois uma carruagem tombada, cavalos roubados e malas espalhadas no chão. O cenário claro de um ataque violento e vitorioso.
Helena percebeu mais os detalhes e ia descrevendo ao grupo, que rapidamente assumiu uma postura tática conservadora, pois já foram pegos por assaltantes na estrada várias vezes. Tibério se escondeu como somente ele sabe; Helena subiu em uma tocaia e ficou de arco pronto mirando pra cabeça do suposto corpo inerte; Damião somente seguiu tranquilo apoiado em sua enxada pois era somente um camponês e Érico tomou a frente, preparado, mas não de armas em punho.
-Por favor, me ajudem! Fomos atacados por ladrões e levaram tudo e mataram meu marido!- Disse a mulher aos prantos, desesperada, descabelada, desarrumada e fedendo muito.
-Quando vocês casaram e qual é o nome do seu cachorro? Érico pergunta em teste, já fez isso algumas vezes e conseguiu concluir que pessoas mentindo e armando uma silada não conseguem construir um raciocínio difuso sobre pressão.
-Casamos no Despertar de 287, e não temos cachorro! Que tipo de pergunta é essa!?- Respondeu com sinceridade evidente e incredulidade também.
-Quem te atacou, que armas usavam e porquê não te mataram também?- Érico continuou, mas não percebia nervosismo ou mentira.
-Foram 4 homens feiosos com lâminas, eu acho. Eu não sei porquê não me mataram, talvez porque eu não tenha mais nada a oferecer-. Disse a mulher chorando e tentando entender alguma empatia de seus inquisidores recentes.
Érico ouviu o suficiente e Damião tentou dar algum sinal que ele também ouvira.
-Vou investigar a cena.- Damião disse se afastando dos dois.
-Eu sinto muito por tudo, senhora. Como podemos te ajudar?- Se afrouxando das desconfianças, o ferreiro tenta ajudar na locomoção da mulher e percebeu sangue entre as pernas dela, algo a mais tinha acontecido, apesar de desconfiar do que era, não iria tocar no assunto. Essa hipótese o revoltou mais com a situação.
-Eu gostaria de levar meu marido para casa e sepulta-lo devidamente. Poderiam me levar até o próximo entreposto?- Se levantando e se recompondo, a viúva disse.
-Minha intenção é garantir a sua segurança, senhora, mas eu infelizmente não decido isso sozinho, tenho que falar com meus amigos antes.- Érico fez um sinal abrangente que significava que o grupo poderia sair, se revelar e se aproximar.
-Amigos? Não é apenas um?- A mulher curiosa, e preocupada se mais do que dois não seria demais.
O grupo se reúne, se apresenta e pondera se seria viável levar a viúva e o corpo até um próximo entreposto, que faria com que frustrasse a missão e perdessem o ouro. Havia um dilema ético acontecendo, Damião e Érico defendiam que deveriam levar a mulher até o local escolhido, mesmo que frustre a missão; Helena e Tibério defendiam que apesar de ser correto e humano levar a mulher, eles já quase morreram por essa missão e essa prata não seria tão fácil de conseguir novamente.
-Mas que diabos, vocês nunca foram tão egoístas assim antes! Vocês querem que eu lembre o que aconteceu em Casteledo quando tava todo mundo no meio da estrada chamando urubu de meu louro!?- Damião estava revoltado e disposto ao usar argumento que for necessário para que resulte na ajuda de uma mulher indefesa violentada e viúva.
A mulher estava longe, mas observando a assembleia entre os quatro, um pouco preocupada, olhando de um lado para o outro discretamente. Talvez aquele lugar não fosse tão seguro assim mesmo.
Por fim, o grupo decide escoltar a viúva, de nome Ileva, com alguns poucos pertences ainda úteis das malas, improvisaram o conserto da carruagem e botaram o falecido marido e algumas quinquilharias em cima da carroça - agora mais leve - e partiram continuando o caminho, mas dessa vez fariam um desvio à duas horas a frente, trazendo a noite consigo.
Estavam a meia hora andando, marcha monótona interrompida por esporádicos murmúrios e lamentos da viúva Ileva, que por muitas vezes olhava para o marido, para o caminho a frente e para o caminho atrás, como quem procura algo. Parecia perdida, talvez.
Érico e Ileva estavam mais atrás, arrastando a carruagem; os outros, mais a frente. Érico pensava muitas coisas e a maioria delas envolvia o futuro conflito com Urravento e o resgate de Dom Altã. Mas seu raciocínio foi interrompida por uma armadilha.
-Não se mexam!- Exclamou Érico, na intenção de impedir o grupo da frente de chutar chutar um fio fino de metal, quase imperceptível, acima de um amontoado de folhas secas e galhos, insuspeitos.
O fio arrebentado ativou uma armadilha de rede, que suspendeu todos os três como se pouco coisa fosse, os erguendo acima do solo na altura do telhado de uma casa de um andar. O pacote suspenso protestava com os piores insultos de Asylum. As três figuras dentro da rede estavam em uma posição de anatomia impossível: enxada pressionando as costas, bafo aquecendo a testa, algibeira repousada na garganta de alguém e mãos pisoteadas. Qualquer ação mais ousada poderia arrebentar a corda magra que sustentava a cena suspensa e uma queda poderia ser fatal.
Súbito, Érico havia entendido todo o panorama incompleto, apesar de Ileva não ser nenhuma ameaça concreta e sua a história fazer sentido, ela de alguma forma estava por trás dessa armadilha.
O ferreiro procurou por ela, no mesmo espasmo que largou a carruagem, sacou o martelo com as duas mãos e estaria disposto a bater tão forte, que seria capaz de fundir qualquer coisa. Sem sucesso, a viúva havia sumido deixando apenas os penduricalhos, o cadáver e jovens frustrados.
-Pelas barbas de Iormur! Mas que filha da puta desgraçada e dissimulada! Protestou entre os dentes.
-Mas por quê?!- Gritou Damião, que reclamava pois seu chapéu ficou caído no chão, ao contrário de quem poderia pensar ser por terem sido pegos na armadilha. Ele gostava muito de chapéus.
-Agora vê se aprende que nem todos merecem ser salvos, camponês- Disse Helena, possessa, pois sabia em seu íntimo que aquela mulher não era confiável e que o instinto generoso de Damião uma hora os poria em alguma furada, mesmo que não conseguisse argumentar nesse sentido, sendo rude propositalmente com o amigo, usando da expressão que só usa quando de fato quer critica-lo ou fazer uma troça.
-Vai ser muito interessante confiar a saúde de nosso joelhos no cara mais bronco e inapto com coisas delicadas de todos nós, haha!- Caniço aparentemente bem humorado e confiante demais para alguém em sua posição desafortunada.
-Vai tomar no cú, Tibério.- Érico, em seu komunal mais formal.
O grupo passa um breve momento debatendo as técnicas, manobras e desfechos possíveis daquela armadilha, conversando o mais breve e objetivo possível, mas Helena foi capaz de perceber uma movimentação estranha entre os arbustos e deduziu precisamente o que era, decidindo se comunicar com Érico da forma mais criptografada que espinha: seu próprio idioma, que tinha ciência que Érico arriscava um mínimo de entendimento.
[CONTO INCOMPLETO E AGUARDANDO REVISÃO]
Mapa 1, Asylum.
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