O quanto de mim enxergo eu?
Existe uma diferença entre aquilo que acredito ser, aquilo que os outros percebem em mim e uma terceira coisa: a Verdade.
Passamos — passo eu — a maior parte da vida buscando, mesmo sem saber, alguma sintonia entre essas três partes. Nossos conflitos pessoais, nossos discursos, a defesa do próprio caráter e até as personas que assumimos por necessidade atravessam esse esforço constante.
Tudo isso passa pela ética. Passa pelos afetos. Mas, sobretudo, passa pela autoimagem.
Quantas vezes me confundi com a imagem que construí de mim mesmo? Quantas vezes fui apenas a narrativa que escolhi contar? E quantas vezes os outros enxergaram algo que eu era incapaz de perceber?
Pergunto-me quais mecanismos, práticas ou abstrações seriam capazes de reduzir esse ruído e nos aproximar da Verdade. Não da conveniência, nem do conforto, mas daquilo que efetivamente é.
Não acredito que toda verdade seja relativa. Há uma diferença entre reconhecer os limites da própria percepção e abandonar a possibilidade de existir algo objetivo. Muitas vezes, o discurso da relatividade absoluta me parece menos uma demonstração de sabedoria e mais uma forma elegante de evitar compromissos e consequências.
Se tudo é igualmente verdadeiro, nada precisa ser sustentado. Se toda posição vale o mesmo, ninguém precisa responder por aquilo que diz.
Talvez o desafio seja justamente o contrário: sustentar uma visão de si mesmo sem transformá-la em dogma; admitir os próprios erros sem dissolver a própria identidade; buscar a Verdade sem presumir que já a possuímos.
A questão que permanece é simples:
Quanto de mim eu realmente enxergo?
E quanto ainda está oculto entre aquilo que acredito ser e aquilo que sou?

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