Zênite

Ficar mais velho é, sobretudo, estar pronto para a morte.

Aprendi algumas coisas nesta vida, e uma delas é que quem você ama vai embora sem pedir sua permissão. Infelizmente, este mundo é insuficiente, falho e traiçoeiro.

Aprendi também que o ego pode ser útil, um aliado valioso, desde que saibamos controlá-lo e retirar dele a capacidade de nos destruir. O desapego e a aceitação da impermanência são, talvez, caminhos possíveis para a felicidade e para a sobrevivência.

Por isso, percebi que devo aproveitar cada segundo da companhia daqueles que importam para mim e ser verdadeiro até o último fio da minha barba. Para mim, poucas coisas são tão dolorosas quanto a sensação de conversas inacabadas, afetos suprimidos e abraços que não foram dados.

Minha mãe, duas amigas do fundo do meu coração, um primo brilhante, dois gatinhos amáveis e tantas outras pessoas que passaram pela minha vida carregando problemas mal resolvidos, vidas depressivas e melancólicas. Somam-se a tudo isso minhas próprias dificuldades e questões.

Tudo isso me ensinou que esta é a vida que vale a pena ser vivida, justamente porque é única. E que a morte não resolve aquilo que ficou para trás, mesmo para aqueles que um dia desejaram encontrá-la. É somente aqui que temos a oportunidade de aprender, corrigir, amar e sofrer por aquilo que amamos.

Essas pessoas me ensinaram a extrair significado e valor daquilo que realmente importa. Declarações, gestos e promessas deixam marcas concretas e, de certa maneira, imortais. Não podem ser em vão.

Há poucos dias completou-se um ano desde que uma dessas amigas se foi.

E eu não pude lhe dar meu último abraço.

Troquei com ela apenas duas ou três palavras amargas.

Eu sabia que seria a última vez que a veria.

E tive medo. Um medo profundo e desolador.

Talvez seja justamente isso que significa envelhecer: perceber que algumas despedidas acontecem enquanto ainda acreditamos que teremos outra oportunidade. Que algumas palavras ficam para sempre presas na garganta. Que certos abraços, quando não acontecem, não podem mais ser recuperados.

Por isso escrevo agora.

Para não deixar que o silêncio seja a última coisa que permaneça.

Eu te amo, Cléo.

"Mamuska."

Obrigado pelas conversas seguras, pela companhia valorosa e por tudo aquilo que você deixou em mim.

De seu filhusko.



No budismo, branco é a cor do luto. E devoto parte doque sou, a esse caminho.

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