Eu gosto muito do trabalho de customização de motos, de projetos de serralheria, de metalurgia no geral — e talvez eu fale um pouco além disso.
Quando estou fazendo essas coisas, ou qualquer outro trabalho de que gosto, sinto que a vida ganha cor. Não sinto o tempo passar. Não sinto sede ou fome, arrependimento ou dor.
Ao invés disso, sinto-me presente, vivo.
Há um tipo de trabalho em que o indivíduo se manifesta, se reconhece e se contempla naquilo que faz. Ele transforma a matéria e, ao mesmo tempo, transforma a si próprio. Existe uma relação entre intenção, esforço e resultado. Aquilo que suas mãos produziram carrega alguma coisa de quem ele é.
Esse é o trabalho que me interessa.
O trabalho não alienante.
Porque existe também o outro.
Aquele em que o indivíduo não se reconhece naquilo que produz. Em que seu tempo pertence a outra pessoa, sua força é convertida em mercadoria e sua existência é organizada em função de uma coisa chamada produtividade.
Esse é o trabalho alienado, tipicamente capitalista.
E talvez uma das maiores violências do capitalismo seja justamente transformar essa situação em algo tão cotidiano que pareça natural.
É difícil explicar o quanto isso é diferente de passar oito, dez ou doze horas executando uma tarefa que não me pertence, para produzir alguma coisa cujo destino desconheço, cujo valor será apropriado por outra pessoa e pela qual receberei apenas uma fração do que meu trabalho foi capaz de criar.
É por isso que não consigo olhar para o trabalho apenas como uma obrigação econômica.
Existe uma dimensão humana nele que o capitalismo frequentemente destrói.
O ser humano não é uma máquina de produzir valor.
Criamos porque existir também é transformar o mundo.
O problema começa quando aquilo que deveria ser uma expressão da nossa humanidade passa a ser apropriado por uma estrutura que nos separa do resultado do nosso próprio esforço.
E talvez seja justamente por isso que eu goste tanto de fazer coisas com as mãos.
Porque, quando termino uma peça, consigo olhar para ela e dizer:
Isso foi eu que fiz, com minhas mãos.
Que ninguém precise passar a maior parte da existência vendendo seu tempo apenas para ter o direito de continuar existindo.
Que trabalhar não seja sinônimo de sobreviver.
Eu não quero um mundo sem trabalho.
Quero um mundo em que o trabalho volte a pertencer ao ser humano.
Quero trabalhar e reconhecer-me no que faço.
Quero criar sem sentir que estou entregando minha vida em parcelas.
Quero que o produto das minhas mãos seja também uma extensão da minha existência.
Eu me sinto como o ferro:
firme, vibrante, denso.
Talvez seja isso que eu procuro quando trabalho:
não apenas fabricar alguma coisa,
mas recuperar, ainda que por algumas horas, o direito de decidir o que fazer com a minha própria força.
E eu não quero passar pela vida como matéria-prima de ninguém.

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